sexta-feira, 9 de março de 2012

Sai da escola, não levava nada nas mãos. Já sentia falta de andar assim, onde e porquê, de que maneira fosse. Estava eu a descer pela penumbra de Dom Afonso Henriques enquanto alternava o olhar entre o espelho solar do outro lado da rua e as lojas, armazéns e cafetarias em todo este redor. Penumbra era fresca e suave; o meu andar esgueiro e cuidado (de costas direitas, cabeça para cima e membros ocasionalmente cambaleantes) brincava com a força gravitacional exercida na parte de baixo da minha roupa exterior; os cheiros que vinham ao nariz atravessam sozinhos a rua em minha direcção, passavam por mim como já (mas ainda não era) costume.
Na Loja com Chão de Vidro dos Sapatos Altos reinava o portão principal para a menta irreal. Desci a rua imensa num ameno aperto de calores. Mais para baixo, quando atravessei aquela passadeira, um olfacto complexo e me irreconhecível, perto do longe mato da Verdizela: cheirava a carnes cozinhadas e cenoura crua, erva acabada de regar, pinheiros cheios de resina peganhenta... Lembrava-me grupos grandes de crianças brincando em cima de mantos densos e densos de acículas com os tutores vigiando-los. Estava ao pé da Loja de Gourmet Fina. O cheiro correu para os reflexos do sol contrários ao eu. Um euforia picou-me de diferentes distâncias, afastando-me cada vez mais da panóplia de perfumes Cruzei os braços em cima da minha barriga (esqueci-me da minha postura com dignidade liberada) e dei ambas as minhas mãos uma pela outra. Perfumes das miúdas de meia-idade, cheiro a novo do plástico, o calcário do caminho que seguravam tantos pés, a confecção dos almoços, o pingado na porcelana pré-acabada, os vestígios da queima dos vários combustíveis (sei lá quantos) voando pelo tubo de escape, o vapor de água mínimo das máquinas, o sabão, a pedra dos muros, o ar vindo pelas brechas das contrucções... E cai, sempre a descer. Mirando a negra de muletas que me olhava com carinho (acho que estávamos a andar ao mesmo ritmo), aquela escola secundária de que não gosto assim tanto, a rotunda da estação do metro suburbano e a margem longínqua do Tejo. Sempre a descer, até à água do rio eu cheirar, saltando para os degraus de cabeça para baixo e uma faca do vazio se espetar e trespassar a minha garganta. Uma força de outro qualquer desceu de novo, limpa e inocente.