terça-feira, 20 de outubro de 2015

Estamos a passear ao pé do cais, e já é noite. Os meus braços estão presos pela sensação de euforia nervosinha que percorre pela pele, traduzida no arrepio dos meus pequenos pêlos e poros. Ele está ali ao meu lado e respiramos a noite num hangar suspenso de pensamentos. Parece que cruzamos os dois, mas as estradas estão enfiadas e conjuntas em 'um' e cortaram as cordas que nos juntavam. E então não nos olhamos, e temos o céu e o mar a quem desejar. E com um doce cintilar, olho as ondas e cheiro o mar enquanto caminhámos adiante lá. Ele de bolsos cheios com os seus dez dedos, eu também.
É uma cidade húmida e pacata, Lisboa neste suave luar à luz dos elétricos e candeeiros de rua, poucos que sejam. Pouca gente caminha a esta hora e praticamente somos só nós.
"Queres saltar?" Pergunto eu, esboçando a espuma cadente e murmurosa do rio.
Ele olha para mim com um olhar desconfiado. Ele que fora sempre uma peça, parte da cidade húmida e luminosa de Lisboa, reflete sobre a minha pergunta ciente de loucura, e responde.
Mas eu não espero pela sua resposta, e salto.
Sinto o rio levar-me para fora da melancolia dos dias que a cidade levam a pesar nos meus passos, e de repente já não tenho pés. Não sinto um chão onde pousar, mas uma onda para onde determinar o rumo das minhas situações desprovidas de razão - uma razão térrea.
Estendo os braços, fecho os olhos. Algas de terreno doce e lírios de agua evadem as minhas pernas. Alforrecas e bolas de musgo tocam nas minhas pernas como rolam entre si; e pequenos peixes de todas as cores eu vejo circularem à volta da minha cabeça. Todos estes seres acolhem a minha mente e um sono profundo abate a minha solidão, de olhos semi fechados, quase...

Algo puxa-me, e a vida foge. Seguro a respiração e recuso-me a existir durante um segundo.
"Estás bem?" Ele agita a minha alma e grita para os meus olhos.
Agarro-lhe a mão.
"Sim. Só estive a viver."
Ele sorriu-me. Ele percebeu. E foi o fim do princípio.